domingo, 28 de fevereiro de 2010

Romance ingénue de duas linhas paralelas

Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.

Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
“Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim…”

Diz-lhe a outra: “Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
fica uma história banal
com linhas e entrelinhas
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente!

José Fanha, in Eu Sou Português Aqui

domingo, 14 de fevereiro de 2010

...


"Nunca me pesou o que de trágico se passasse na China. É decoração longínqua, ainda que a sangue e peste."

Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

domingo, 20 de setembro de 2009

Registos


Aperta o punho com quanta força tem; lá dentro guarda ciosamente o sorriso que teima em querer fugir-lhe. Antípoda de outro sorriso, com quem já fez as delícias de um coração pungente, paleta de sensações que lhe percorrem os sentidos a cada lembrança retirada do baú dos sonhos idos.
Um sorriso de paz num coração em guerra, que crê cegos os que o observam e oculta o inconfessável.

Mas o silêncio, seu pior delator, faz deslizar sobre ele o manto da realidade, transforma a ilusão de uma primavera perene no horizonte cinza de um dia chuvoso; abre um fosso entre uma felicidade e outra. E, entre um olhar perdido além fronteiras e um sorriso que acaba por lhe desmaiar nos lábios, ficam apenas os registos para a posteridade.

sábado, 19 de setembro de 2009

Ainda... O Livro do Desassossego


"Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos..."

Fernando Pessoa

domingo, 13 de setembro de 2009

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"Como todo o indivíduo de grande mobilidade mental, tenho um amor orgânico e fatal à fixação. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido.
(...)
Ah, viagem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida.
(...)
Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir."

Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

domingo, 6 de setembro de 2009

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"O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção."

Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Axioma


"A felicidade não se deixa vender por dinheiro, não se permite seduzir pela fama e nem aceita ser subjugada pelo poder.
Se quisermos encontrá-la, precisamos de procurá-la nos recônditos anónimos do espírito humano, nas avenidas ocultas da emoção."

Augusto Cury