segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

"Sem nome"

"Uma lágrima
Um sorriso
Um pássaro
Que empresta as asas
Um pincel de sonhos
Uma tela livre
O poema, poente, madrugada
Como uma vela
Iluminando o tempo
O amor sempre miragem
Sempre presente
A busca do objecto
E da imagem
O voo silencioso e calmo
Desenhando a vida
Com traços de juventude

Na água escreverei
O teu olhar
E farei germinar
As sementes coloridas
Que um dia pintaste
Sem saber... "

Luísa, in Flores aos meus amigos

Obrigada, Luísa, por colocar a sua sensibilidade ao serviço da Amizade!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Um lampejo de vida passou por aqui...

"Carpe diem

Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso."

Nuno Júdice

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Hoje, as Flores são para si, Luísa!...

"Das tuas palavras
Sopra um vento calmo
A própria voz da espera
No espanto do meu olhar
Quantas vezes te perdi
Tentando encontro
Quantas vezes te esperei
Tentando sonho
Gosto de te encontrar
Por acaso
No meio das minhas horas
Nos meus poemas
Conto desejos de ter
Coisa nenhuma
Apenas tu...
Por vezes deito fora
O barulho dos teus passos
Nos meus rascunhos

Dizemos tantas vezes adeus
Por quase nada
E tão poucas palavras
pelo sentir"

Luísa, in Flores aos meus amigos

... E um beijinho que pretende ser prenúncio de venturas, para uma vida que desejo longa!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Quando a emoção ganha cor...

"São as palavras por dizer
Que me permitem sonhar
Pinto em telas transparentes
As imagens por pintar
Com o desejo de sair

Sou deus da minha sina
Este tempo sem destino
Sou deus da minha alma
Fardo pesado, vazio

Quero calma, quero esperança
Quero ser fácil sonhar
Viajo nesta verdade
Que me liberta e me amarra
Às sombras do meu silêncio

Murmuro palavras
Que não posso gritar
E cresce dentro de mim
Esta noite sem estrelas
Prenúncio de temporal

Preciso das tuas mãos
No meu desejo
Preciso do teu corpo
Na minha alma
Preciso do teu beijo
Na minha angústia

Percorro devagar o meu passado
E o aroma das coisas calmas
Invade-me num instante eterno
Eu sou daqui,
Deste espaço, onde a manhã se afoga
No verde, no mar, no riso das crianças

Talvez te continue a encontrar
Como ilha no meu sonho
Talvez te continue a abraçar
Com braços de madrugada
Deixa-me voar ao desencontro
Da tristeza"

Luísa, in Flores aos meus Amigos

... A verdadeira Amizade põe-nos o coração sob escuta.

domingo, 7 de outubro de 2007

Mudanças...

Tendo sido desafiada a variar um pouco nos temas, aproveitei um que tenho entre mãos, para sobre ele meditar. Deixo aqui a minha reflexão.
Foi-me pedido:

Escolha três factos da actualidade portuguesa que lhe tenham chamado a atenção (justifique a sua escolha).
Em seguida, faça um brevíssimo comentário pessoal sobre um desses acontecimentos.

Ei-los:

- O caso da pedofilia na Casa Pia. Por tudo o que este caso tem de chocante.

- O caso “Apito dourado”, a corrupção no futebol, e tudo o que à volta dela gravita. Quão longe o homem é capaz de ir na perversão.

- O caso Maddie Macin. Pela forma diferente como este caso foi tratado pelas autoridades portuguesas, em comparação com outros, inúmeros casos de crianças desaparecidas neste País.

Escolho este último para o meu breve comentário:

Quando ouço falar de crianças desaparecidas, imediata e mentalmente visualizo o rostinho do Rui Pedro e ocorre-me a face da sua mãe, Filomena, desfigurada pela dor, exaurida de tanto implorar ajuda para encontrar o seu menino muito amado.
E no caso da Maddie? Igualmente amada, julgo que ninguém duvida, mas quão diferente foi a atitude das autoridades...

Ainda no âmbito do referido desafio, e na sequência de um convite para comentar um artigo publicado na imprensa nacional, da autoria de José Pacheco Pereira, em que este, por sua vez, comenta uma obra, cujo autor, numa visão "apocalíptica", defende que a nossa cultura está ameaçada de morte, pelas novas tecnologias, aqui fica o meu comentário e o meu pensamento sobre este assunto.

A partir da leitura da crónica de José Pacheco Pereira* responda:

a) Qual a tese defendida por Andrew Keen?
b) Apresente, de forma resumida, os principais argumentos para justificar a referida tese.
c) Sintetize os principais argumentos de José Pacheco Pereira contra a perspectiva “apocalíptica”.
d) Concorda com os referidos argumentos? (justifique).

Ocorre-me dizer o seguinte:

a) Andrew Keen, defende, numa visão catastrófica, que a nossa cultura está ameaçada de morte, pelo facto de, com a facilidade que todos conhecemos, usando as novas tecnologias, qualquer pessoa poder, livremente, sem qualquer controlo, espalhar pelo planeta as suas ideias e os seus pensamentos, correctos ou errados, próprios ou abusivamente copiados e apropriados.

b) O principal é, sem dúvida a “blogosfera”, onde, sem nenhum pudor, são despejadas toneladas de escritos sem qualquer preocupação de qualidade, de verdade ou de saber, muitas vezes, plagiados, outras, ainda, ofensivos e com vocabulários grosseiros e obscenos.
Outro, é o exemplo que o próprio Pacheco Pereira deu, a Wikipédia, enciclopédia que vai crescendo com o contributo livre de todos os que lá quiserem deixar a sua assinatura, tenham ou não conhecimentos para o fazer.

c) Segundo Pacheco Pereira, as novas tecnologias não são, necessariamente, o fim da nossa cultura, embora possam causar-lhe sérios danos. Acrescenta ainda que, elas permitiram que milhões de pessoas tivessem acesso a consumos e pudessem expressar-se descontraidamente, divulgando as suas opiniões, com uma facilidade impensável há alguns anos atrás. Refere, também, a tendência para, ciclicamente, aparecerem premonições apocalípticas, que, felizmente, não chegam a concretiza-se, não estando, no entanto, tão seguro quanto a esta.

d) Sim. Sendo, na verdade, preocupante que se estejam a perder valores que constituíam o capital de um povo, é, também, sabido que todas as mudanças envolvem perturbações, até que a normalidade regresse. No entanto, mesmo sabendo que podem ser muito prejudiciais quando mal usadas, não posso deixar de me sentir pequenina, ínfima mesmo, face à grandeza e ao alcance das novas tecnologias, das quais destaco as mais recentes, o telemóvel e a internet.

* Publicada no Público, sábado 8 de Setembro de 2007, sob o título: "Está a Internet a matar a nossa cultura?"

sábado, 29 de setembro de 2007

Se pudéssemos...

"...
Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas..."

Florbela Espanca

... Ah, se pudéssemos ouvir o olhar, escutar os pensamentos, decifrar o sorriso!...

sábado, 22 de setembro de 2007

O outro lado de cada um de nós

Com a devida vénia, aqui fica a minha penitência para o caso desta reflexão poder vir a agitar consciências.
Imaginemos a vida dividida em compartimentos. Dois.
Um, virado para o exterior, com janelas rasgadas e grandes portões escancarados, por onde entra o sol e circula o ar. Amplo, o suficiente para nele caberem recepções, festas, espectáculos. Com painéis enormes, onde se inscrevem os feitos que se vão acumulando, e grandes prateleiras onde se expõem os troféus conquistados.
Neste compartimento, vêem-se sorrisos, simpatia, boas maneiras, ensaiados ao som da orquestra das convenções. Aqui, rendem-se homenagens, nem sempre merecidas, e faz-se o culto ao prazer imediato. Retarda-se o tempo, recorrendo aos avanços da ciência e da técnica, perfuma-se o ar, experimenta-se o êxtase.
No outro compartimento, quiçá, mais sombrio e insalubre, aproveita-se as migalhas que o tempo deixa, para gerir contrariedades, ocultar lembranças que fazem doer, secar lágrimas insurrectas. Neste compartimento, contabiliza-se as derrotas, soma-se as perdas, apura-se amarguras.
A abertura estreita, fria e severa, virada para o poente, convida à reflexão: Valerá a pena tantos atropelos? Não me parece!
Se tivermos como certo que os grandes valores da vida acontecem naturalmente, então, para quê tanta competição?
O amor não se compra! O amor acontece! A verdadeira amizade nasce! A paz não está à venda! A saúde não tem preço!
... E como ficamos impotentes quando vemos partir os que nos são queridos!
... Se em mais compartimentos dividíssemos a vida, seguramente, encontraríamos mais razões para reflectir!

"...
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhamos na cidade clandestina
Quando as manhas cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos."

Joaquim Pessoa