domingo, 14 de junho de 2009
*(Sem título)
Chegaste como a aurora, pela manhã,
Pousaste levemente, de mansinho,
Com a leveza e doçura que te caracterizam.
Não pediste licença, entraste,
Qual alcova nupcial pronta a receber-te,
E de forma indelével deixaste a tua marca.
Com a mesma serenidade com que apareceste
Foste-te esgueirando paulatinamente,
Sem te aperceberes que os campos
Outrora áridos e agrestes,
Eram agora planícies ardentes, sedentas de ternura,
Espezinhadas por um sentimento amordaçado.
O sol que a aurora prometera não chegou,
Em seu lugar veio a tempestade angustiante,
A ansiedade, o vazio do afastamento,
A fazerem jus ao Dezembro frio e chuvoso
Que te trouxe de outra estação, porventura mais bonita!
*Escrito em 29/07/2001 (continua actual)
domingo, 7 de junho de 2009
Ausência versus presença
[Quero é estar contigo no nada de tudo o que acontecer. Saturar-me da tua presença. E ver-te. E ver-te. Que importa o que "acontecer"?]
Vergílio Ferreira, in Em Nome da Terra
domingo, 31 de maio de 2009
Constatação
"Muito vence quem se vence
Muito diz quem não diz tudo,
Porque a um discreto pertence
A tempo fazer-se mudo."
Copla do Infante D. Luiz, cit. Augusto Gil, in Luar de Janeiro
sábado, 14 de março de 2009
Mãe
Mãe, gostaste das flores que te levei?
Não disseste nada!?... :(
Eram as tuas flores, as tuas companheiras inseparáveis de toda a tua vida; aquelas que, deixavas-nos adivinhar, eram indispensáveis ao teu equilíbrio emocional.
Eram as tuas flores, as tuas companheiras inseparáveis de toda a tua vida; aquelas que, deixavas-nos adivinhar, eram indispensáveis ao teu equilíbrio emocional.
Sabes, hoje, esta dor começou a abrandar. Eu não conseguia perceber como é que tinhas sido capaz de te deixar ir, assim, sabendo que nos deixarias sós. Nós, por quem toda a vida foste uma lutadora; assim, de um momento para o outro, foste-te embora e deixaste-nos órfãos?
Hoje, quando insisti tanto para que viesses ver as tuas flores, quando chorei e implorei para que me ouvisses, é que percebi que as tuas forças não chegaram para te libertares de todo o peso que te puseram em cima;
Percebi que a tua vontade não relevou para este acto;
Percebi que se tivesses podido escolher nunca nos terias deixado;
Percebi que a nossa dor não foi causada por ti mas em razão de ti;
Percebi que, onde estiveres, continuas a ser aquele elemento agregador que nos fazia caminhar numa única direcção, a tua;
Percebi que, no dia em que nos deixaste, quando sentimos aquele desejo enorme de ficarmos juntos, em redor da mesma dor, tu continuavas connosco, continuavas a ser a célula que nos mantém unidos e presentes, que nos transmite luz e anula a escuridão daquele dia terrível.
Percebi que, afinal, tu, Mãe, continuarás connosco para todo o sempre!
Percebi que, afinal, tu, Mãe, continuarás connosco para todo o sempre!
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O Fogo e as Cinzas
de Manuel da Fonseca
Li atentamente “O fogo e as cinzas”, um conto que, do princípio ao fim, se movimenta continuamente entre o presente e o passado, numa dança inquieta e angustiante, em que o seu personagem principal, o Sr. Portela, se debate entre um amor não vivido e uma honra que não foi suficiente para evitar uma velhice solitária.
O texto é uma narração, intercalada por pequenos diálogos em discurso directo, todo ele em linguagem familiar, em que são relatadas emoções, sentimentos, angústias e mágoas com a força que lhes é conferida pelos expressivos vocábulos de que o Autor se serve.
O conto representa uma realidade repartida por várias décadas, cuja acção se desenrola numa vila pacata, a partir do imaginário do personagem, saudoso, atormentado por recordações que lhe ferem a alma, pouco assertivo em relação a um passado distante, e ufano dos feitos dos seus próximos, que se serve de antíteses para lhes dar maior relevo:
“Eu odiava e adorava o fogo, tal como o Mestre Poupa". Ainda: “- Só queria que vocês assistissem ao incêndio da Rua da Madalena, lá em Lisboa. Isso é que foi um fogo bom! – Recordava ele, animado e feliz. "– Morreram dezenas de pessoas.”
Pela mão do narrador entramos na vida de outros dois personagens, Mestre Poupa bombeiro, já falecido, e André Juliano a cumprir pena de prisão. Não obstante, a cada um seu drama de vida. Mestre Poupa bombeiro, inconsolável com o fim dos “incêndios grandes e devastadores”, e André Juliano, sorumbático, sob a autoridade de seu pai, apesar dos seus cinquenta anos, de quem recebia uns miseráveis “vinte e cinco tostões”.
O Sr. Portela debate-se entre a realidade e as recordações. Ora apressa-se para não se atrasar para o cafezinho do costume com os seus dois amigos, ora é sacudido pela dura realidade de que da “trindade falhada” já só resta ele, “velho e casmurro”. Perseguido pela tormentosa recordação da sua noiva, Antoninha das Dores, no meio da rua, deitada nos braços do grandalhão Chico Biló, em fralda de camisa, de coxas, ventre e seio ao léu, após ter sido salva de um incêndio, consome o tempo de que dispõe, distribuindo por ele, sucessivamente e com parcimónia, o pouco que lhe sobra para fazer. Adoça o café com pitadas, colher a colher; pachorrentamente prepara um cigarro, a ver se consegue trocar as voltas ao tempo e passar-lhe à frente.
No texto são mais frequentes as evocações do passado do que os relatos do presente. São evocações tão nítidas que permitem ao leitor sentir a vila morna, pacífica, pouco povoada, ser acordada, primeiro, com as travessuras dos três pequenos estroinas, estudantes temidos, a quem os castigos não impediram de partir as carteiras da escola, o quadro grande, e rasgarem-se uns aos outros, ao que os pais concluíram que de cultura o que tinham já lhes chegava; depois, enquanto jovens, “O largo, e mais tarde os bailes desordeiros do campo e a noite sem lei das ruas da vila” passaram a ser o seu mundo.
Pela narração do Autor, somos levados a um café, pouco movimentado, algo insalubre, com mesas de tampo de mármore, sujo, distribuídas pelos cantos da sala, que é servida por uma montra donde se pode ver a rua até ao fim. Do tecto da sala pendem aquilo a que o Autor chama os {nojentos “cemitérios”}, que atraem as moscas. Vê-se um empregado de aspecto pouco cuidado, mas afável. Percebe-se que, embora com pouco movimento, o café é frequentado sempre pelos mesmos clientes. “De soslaio, lanço uma mirada pelos grupos que falam de mesa para mesa.”
A mágoa que o Sr. Portela transporta consigo, é de tal forma nítida aos sentidos do leitor, que conseguimos ouvir acelerar-se-lhe o respirar quando olha através do vidro da montra e vê o André Juliano aproximar-se, e ver o corpo murchar-lhe quando “Aos poucos, a cabeça vai-me tombando entre os ombros vergados pela vida.”. Ainda, quando, indefeso, se rende às recordações, “Os meus olhos, nevoentos, voltam-se para o passado".
Do presente ressalta um elenco de adjectivos que fazem aumentar a angústia do personagem principal: “O espelho, em frente, mostra-me o meu carão esverdinhado de velho. (...) Poltrão. É isso: um cobarde. (...) vejo no espelho o meu carão de tal forma espantado que me parece ter acabado de beber veneno.”
Mas o passado grudou-se-lhe para sempre, e rendido às recordações que o atormentam, decide: “Não faz mal. Seja onde for, posso rever a minha desgraça. (...) bebo a minha xícara, faço um cigarro. Logo começo a apertar as mãos até os ossos estalarem. E Antoninha das Dores vem.”
Leiam Manuel da Fonseca e, tal como eu, ficarão rendidos ao seu estilo autêntico.
Li atentamente “O fogo e as cinzas”, um conto que, do princípio ao fim, se movimenta continuamente entre o presente e o passado, numa dança inquieta e angustiante, em que o seu personagem principal, o Sr. Portela, se debate entre um amor não vivido e uma honra que não foi suficiente para evitar uma velhice solitária.
O texto é uma narração, intercalada por pequenos diálogos em discurso directo, todo ele em linguagem familiar, em que são relatadas emoções, sentimentos, angústias e mágoas com a força que lhes é conferida pelos expressivos vocábulos de que o Autor se serve.
O conto representa uma realidade repartida por várias décadas, cuja acção se desenrola numa vila pacata, a partir do imaginário do personagem, saudoso, atormentado por recordações que lhe ferem a alma, pouco assertivo em relação a um passado distante, e ufano dos feitos dos seus próximos, que se serve de antíteses para lhes dar maior relevo:
“Eu odiava e adorava o fogo, tal como o Mestre Poupa". Ainda: “- Só queria que vocês assistissem ao incêndio da Rua da Madalena, lá em Lisboa. Isso é que foi um fogo bom! – Recordava ele, animado e feliz. "– Morreram dezenas de pessoas.”
Pela mão do narrador entramos na vida de outros dois personagens, Mestre Poupa bombeiro, já falecido, e André Juliano a cumprir pena de prisão. Não obstante, a cada um seu drama de vida. Mestre Poupa bombeiro, inconsolável com o fim dos “incêndios grandes e devastadores”, e André Juliano, sorumbático, sob a autoridade de seu pai, apesar dos seus cinquenta anos, de quem recebia uns miseráveis “vinte e cinco tostões”.
O Sr. Portela debate-se entre a realidade e as recordações. Ora apressa-se para não se atrasar para o cafezinho do costume com os seus dois amigos, ora é sacudido pela dura realidade de que da “trindade falhada” já só resta ele, “velho e casmurro”. Perseguido pela tormentosa recordação da sua noiva, Antoninha das Dores, no meio da rua, deitada nos braços do grandalhão Chico Biló, em fralda de camisa, de coxas, ventre e seio ao léu, após ter sido salva de um incêndio, consome o tempo de que dispõe, distribuindo por ele, sucessivamente e com parcimónia, o pouco que lhe sobra para fazer. Adoça o café com pitadas, colher a colher; pachorrentamente prepara um cigarro, a ver se consegue trocar as voltas ao tempo e passar-lhe à frente.
No texto são mais frequentes as evocações do passado do que os relatos do presente. São evocações tão nítidas que permitem ao leitor sentir a vila morna, pacífica, pouco povoada, ser acordada, primeiro, com as travessuras dos três pequenos estroinas, estudantes temidos, a quem os castigos não impediram de partir as carteiras da escola, o quadro grande, e rasgarem-se uns aos outros, ao que os pais concluíram que de cultura o que tinham já lhes chegava; depois, enquanto jovens, “O largo, e mais tarde os bailes desordeiros do campo e a noite sem lei das ruas da vila” passaram a ser o seu mundo.
Pela narração do Autor, somos levados a um café, pouco movimentado, algo insalubre, com mesas de tampo de mármore, sujo, distribuídas pelos cantos da sala, que é servida por uma montra donde se pode ver a rua até ao fim. Do tecto da sala pendem aquilo a que o Autor chama os {nojentos “cemitérios”}, que atraem as moscas. Vê-se um empregado de aspecto pouco cuidado, mas afável. Percebe-se que, embora com pouco movimento, o café é frequentado sempre pelos mesmos clientes. “De soslaio, lanço uma mirada pelos grupos que falam de mesa para mesa.”
A mágoa que o Sr. Portela transporta consigo, é de tal forma nítida aos sentidos do leitor, que conseguimos ouvir acelerar-se-lhe o respirar quando olha através do vidro da montra e vê o André Juliano aproximar-se, e ver o corpo murchar-lhe quando “Aos poucos, a cabeça vai-me tombando entre os ombros vergados pela vida.”. Ainda, quando, indefeso, se rende às recordações, “Os meus olhos, nevoentos, voltam-se para o passado".
Do presente ressalta um elenco de adjectivos que fazem aumentar a angústia do personagem principal: “O espelho, em frente, mostra-me o meu carão esverdinhado de velho. (...) Poltrão. É isso: um cobarde. (...) vejo no espelho o meu carão de tal forma espantado que me parece ter acabado de beber veneno.”
Mas o passado grudou-se-lhe para sempre, e rendido às recordações que o atormentam, decide: “Não faz mal. Seja onde for, posso rever a minha desgraça. (...) bebo a minha xícara, faço um cigarro. Logo começo a apertar as mãos até os ossos estalarem. E Antoninha das Dores vem.”
Leiam Manuel da Fonseca e, tal como eu, ficarão rendidos ao seu estilo autêntico.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Ausência

A solidão fria da ausência desfigura o nosso ser.
No rosto, estende-se a cambraia negra que cobre a destemperança da paixão e sufoca o último retalho de sorriso que escapou da partida;
dos olhos, ainda escorrem as últimas gotas da tempestade que começa a amainar;
dos cabelos, pendem finos cristais de indiferença, fronteira ténue entre a vontade de viver e o desejo de morrer;
das mãos, desliza a última nesga de esperança, resistente companheira do sonho que a alimentou;
ao coração, a fina geada torna-o hirto, sem vida;
a noite, dobrada sobre si mesma, a contorcer-se de dor, conduz-nos a um roseiral, onde as rosas cederam o lugar aos espinhos, até que a primavera regresse.
Mas a noite, que refina sentimentos e acentua a cor cinza da vida, dará lugar a outro dia, prenhe de uma nova esperança, que se prolongará para além dos limitados horizontes da nossa existência.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Assimetria de sentimentos
Ontem, num Telejornal, ouvi a notícia do lançamento de um livro, de uma psicanalista espanhola, Mariela Michelena, cujo título é "Mulheres Mal-Amadas".
Com a devida vénia à Autora, a quem apresento os meus cumprimentos pela sua obra, começo por dizer que não gosto do título do livro, por tudo o que ele pode sugerir.
Não pretendo comentar a obra em si, tanto mais que ainda não a li - o que farei sem nenhum sacrifício -, mas tão-somente pegar-lhe no título, passando de soslaio pela sinopse e reflectir sobre o tema.
Talvez por não perceber bem o que é que significa ser bem ou mal amado – a ideia que tenho é que se pode ser muito amado ou pouco amado ou, simplesmente, ser ou não ser amado –, neste caso, eu preferia chamar-lhe "Assimetria de sentimentos"; e isto não é, apenas, uma questão semântica é, antes, uma questão de verdade interior.
Mas a Sinopse do livro reza assim:
"Este livro é dedicado a todas as mulheres que são mal-amadas. E quando falamos de mal-amadas, não nos referimos apenas a mulheres vítimas de violência doméstica. Falamos de mulheres que estão presas a relações impossíveis, furtivas, clandestinas ou proibidas. Relações que as consomem emocionalmente, que as vão destruindo psicologicamente aos poucos. Mulheres que choram por um amor sem futuro. Que são fiéis e submissas a um homem que não as quer bem. Mulheres extraordinárias, fortes em todos os campos da sua vida, menos no amor. Mulheres enganadas, assustadas, traídas, dispostas a anularem-se perante um homem que não as quer como elas merecem ser queridas.
- Anula-se na sua relação para não provocar conflitos com o seu marido?
- Acaba e recomeça constantemente a sua relação?
- Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?- É incapaz de falar com as suas amigas sobre os seus sentimentos?"
Esta notícia prendeu-me a atenção por ser um tema pelo qual me interesso muito, os sentimentos, mas também por não concordar com a ideia que o resumo que foi feito para a apresentação do livro transmite.
Permito-me discordar desta resenha porque não me parece que haja mulheres mal-amadas, aliás, nem mulheres nem homens mal-amados, o que há, isso sim, são sentimentos fora do lugar, amores trocados, ou o que lhes quisermos chamar, mais ou menos difíceis de morrer.
Se a expressão "mal-amada" corresponde a sentimentos desencontrados, isto não significa que, exactamente, por via disso, do outro lado da barreira que ela, inconscientemente, ergueu para se guardar só para esse amor, não haja um ou vários outros amores, que a podem amar muito, mas a quem, também ela, não pode corresponder. Neste caso o rótulo passaria a ser "Homens Mal-Amados"? E, em que é que ficamos, ela, ainda assim, é mal-amada?
Para além disto, da apresentação do livro – "Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?" –, fica-nos a ideia, a exemplo de muitos outros livros do género, que a obra pretende ser um kit, composto por uns quantos metros de felicidade, de tamanho maior ou menor consoante o número de pessoas a quem quisermos mostrar que somos felizes, um frasquinho de sorrisos, prontos a disparar sempre que se revelar oportuno, uma pomadinha para ajudar à serenidade e uma embalagem de comprimidos para a contenção e o auto-controlo.
Este meu acreditar é empírico, nada tem de científico, mas é a partir das experiências que se formam as teorias e são estas que nos conduzem à ciência. E é científico que as mulheres trazem consigo uma maior carga de emoção do que os homens, o que as faz, em regra, viver o amor com mais intensidade do que aqueles, sendo que isso as torna, também, mais vulneráveis, mas não, necessariamente, mal-amadas, seja o que for que isso signifique.
Com a devida vénia à Autora, a quem apresento os meus cumprimentos pela sua obra, começo por dizer que não gosto do título do livro, por tudo o que ele pode sugerir.
Não pretendo comentar a obra em si, tanto mais que ainda não a li - o que farei sem nenhum sacrifício -, mas tão-somente pegar-lhe no título, passando de soslaio pela sinopse e reflectir sobre o tema.
Talvez por não perceber bem o que é que significa ser bem ou mal amado – a ideia que tenho é que se pode ser muito amado ou pouco amado ou, simplesmente, ser ou não ser amado –, neste caso, eu preferia chamar-lhe "Assimetria de sentimentos"; e isto não é, apenas, uma questão semântica é, antes, uma questão de verdade interior.
Mas a Sinopse do livro reza assim:
"Este livro é dedicado a todas as mulheres que são mal-amadas. E quando falamos de mal-amadas, não nos referimos apenas a mulheres vítimas de violência doméstica. Falamos de mulheres que estão presas a relações impossíveis, furtivas, clandestinas ou proibidas. Relações que as consomem emocionalmente, que as vão destruindo psicologicamente aos poucos. Mulheres que choram por um amor sem futuro. Que são fiéis e submissas a um homem que não as quer bem. Mulheres extraordinárias, fortes em todos os campos da sua vida, menos no amor. Mulheres enganadas, assustadas, traídas, dispostas a anularem-se perante um homem que não as quer como elas merecem ser queridas.
- Anula-se na sua relação para não provocar conflitos com o seu marido?
- Acaba e recomeça constantemente a sua relação?
- Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?- É incapaz de falar com as suas amigas sobre os seus sentimentos?"
Esta notícia prendeu-me a atenção por ser um tema pelo qual me interesso muito, os sentimentos, mas também por não concordar com a ideia que o resumo que foi feito para a apresentação do livro transmite.
Permito-me discordar desta resenha porque não me parece que haja mulheres mal-amadas, aliás, nem mulheres nem homens mal-amados, o que há, isso sim, são sentimentos fora do lugar, amores trocados, ou o que lhes quisermos chamar, mais ou menos difíceis de morrer.
Se a expressão "mal-amada" corresponde a sentimentos desencontrados, isto não significa que, exactamente, por via disso, do outro lado da barreira que ela, inconscientemente, ergueu para se guardar só para esse amor, não haja um ou vários outros amores, que a podem amar muito, mas a quem, também ela, não pode corresponder. Neste caso o rótulo passaria a ser "Homens Mal-Amados"? E, em que é que ficamos, ela, ainda assim, é mal-amada?
Para além disto, da apresentação do livro – "Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?" –, fica-nos a ideia, a exemplo de muitos outros livros do género, que a obra pretende ser um kit, composto por uns quantos metros de felicidade, de tamanho maior ou menor consoante o número de pessoas a quem quisermos mostrar que somos felizes, um frasquinho de sorrisos, prontos a disparar sempre que se revelar oportuno, uma pomadinha para ajudar à serenidade e uma embalagem de comprimidos para a contenção e o auto-controlo.
Este meu acreditar é empírico, nada tem de científico, mas é a partir das experiências que se formam as teorias e são estas que nos conduzem à ciência. E é científico que as mulheres trazem consigo uma maior carga de emoção do que os homens, o que as faz, em regra, viver o amor com mais intensidade do que aqueles, sendo que isso as torna, também, mais vulneráveis, mas não, necessariamente, mal-amadas, seja o que for que isso signifique.
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