de Manuel da Fonseca
Li atentamente “O fogo e as cinzas”, um conto que, do princípio ao fim, se movimenta continuamente entre o presente e o passado, numa dança inquieta e angustiante, em que o seu personagem principal, o Sr. Portela, se debate entre um amor não vivido e uma honra que não foi suficiente para evitar uma velhice solitária.
O texto é uma narração, intercalada por pequenos diálogos em discurso directo, todo ele em linguagem familiar, em que são relatadas emoções, sentimentos, angústias e mágoas com a força que lhes é conferida pelos expressivos vocábulos de que o Autor se serve.
O conto representa uma realidade repartida por várias décadas, cuja acção se desenrola numa vila pacata, a partir do imaginário do personagem, saudoso, atormentado por recordações que lhe ferem a alma, pouco assertivo em relação a um passado distante, e ufano dos feitos dos seus próximos, que se serve de antíteses para lhes dar maior relevo:
“Eu odiava e adorava o fogo, tal como o Mestre Poupa". Ainda: “- Só queria que vocês assistissem ao incêndio da Rua da Madalena, lá em Lisboa. Isso é que foi um fogo bom! – Recordava ele, animado e feliz. "– Morreram dezenas de pessoas.”
Pela mão do narrador entramos na vida de outros dois personagens, Mestre Poupa bombeiro, já falecido, e André Juliano a cumprir pena de prisão. Não obstante, a cada um seu drama de vida. Mestre Poupa bombeiro, inconsolável com o fim dos “incêndios grandes e devastadores”, e André Juliano, sorumbático, sob a autoridade de seu pai, apesar dos seus cinquenta anos, de quem recebia uns miseráveis “vinte e cinco tostões”.
O Sr. Portela debate-se entre a realidade e as recordações. Ora apressa-se para não se atrasar para o cafezinho do costume com os seus dois amigos, ora é sacudido pela dura realidade de que da “trindade falhada” já só resta ele, “velho e casmurro”. Perseguido pela tormentosa recordação da sua noiva, Antoninha das Dores, no meio da rua, deitada nos braços do grandalhão Chico Biló, em fralda de camisa, de coxas, ventre e seio ao léu, após ter sido salva de um incêndio, consome o tempo de que dispõe, distribuindo por ele, sucessivamente e com parcimónia, o pouco que lhe sobra para fazer. Adoça o café com pitadas, colher a colher; pachorrentamente prepara um cigarro, a ver se consegue trocar as voltas ao tempo e passar-lhe à frente.
No texto são mais frequentes as evocações do passado do que os relatos do presente. São evocações tão nítidas que permitem ao leitor sentir a vila morna, pacífica, pouco povoada, ser acordada, primeiro, com as travessuras dos três pequenos estroinas, estudantes temidos, a quem os castigos não impediram de partir as carteiras da escola, o quadro grande, e rasgarem-se uns aos outros, ao que os pais concluíram que de cultura o que tinham já lhes chegava; depois, enquanto jovens, “O largo, e mais tarde os bailes desordeiros do campo e a noite sem lei das ruas da vila” passaram a ser o seu mundo.
Pela narração do Autor, somos levados a um café, pouco movimentado, algo insalubre, com mesas de tampo de mármore, sujo, distribuídas pelos cantos da sala, que é servida por uma montra donde se pode ver a rua até ao fim. Do tecto da sala pendem aquilo a que o Autor chama os {nojentos “cemitérios”}, que atraem as moscas. Vê-se um empregado de aspecto pouco cuidado, mas afável. Percebe-se que, embora com pouco movimento, o café é frequentado sempre pelos mesmos clientes. “De soslaio, lanço uma mirada pelos grupos que falam de mesa para mesa.”
A mágoa que o Sr. Portela transporta consigo, é de tal forma nítida aos sentidos do leitor, que conseguimos ouvir acelerar-se-lhe o respirar quando olha através do vidro da montra e vê o André Juliano aproximar-se, e ver o corpo murchar-lhe quando “Aos poucos, a cabeça vai-me tombando entre os ombros vergados pela vida.”. Ainda, quando, indefeso, se rende às recordações, “Os meus olhos, nevoentos, voltam-se para o passado".
Do presente ressalta um elenco de adjectivos que fazem aumentar a angústia do personagem principal: “O espelho, em frente, mostra-me o meu carão esverdinhado de velho. (...) Poltrão. É isso: um cobarde. (...) vejo no espelho o meu carão de tal forma espantado que me parece ter acabado de beber veneno.”
Mas o passado grudou-se-lhe para sempre, e rendido às recordações que o atormentam, decide: “Não faz mal. Seja onde for, posso rever a minha desgraça. (...) bebo a minha xícara, faço um cigarro. Logo começo a apertar as mãos até os ossos estalarem. E Antoninha das Dores vem.”
Leiam Manuel da Fonseca e, tal como eu, ficarão rendidos ao seu estilo autêntico.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
domingo, 4 de janeiro de 2009
Ausência

A solidão fria da ausência desfigura o nosso ser.
No rosto, estende-se a cambraia negra que cobre a destemperança da paixão e sufoca o último retalho de sorriso que escapou da partida;
dos olhos, ainda escorrem as últimas gotas da tempestade que começa a amainar;
dos cabelos, pendem finos cristais de indiferença, fronteira ténue entre a vontade de viver e o desejo de morrer;
das mãos, desliza a última nesga de esperança, resistente companheira do sonho que a alimentou;
ao coração, a fina geada torna-o hirto, sem vida;
a noite, dobrada sobre si mesma, a contorcer-se de dor, conduz-nos a um roseiral, onde as rosas cederam o lugar aos espinhos, até que a primavera regresse.
Mas a noite, que refina sentimentos e acentua a cor cinza da vida, dará lugar a outro dia, prenhe de uma nova esperança, que se prolongará para além dos limitados horizontes da nossa existência.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Assimetria de sentimentos
Ontem, num Telejornal, ouvi a notícia do lançamento de um livro, de uma psicanalista espanhola, Mariela Michelena, cujo título é "Mulheres Mal-Amadas".
Com a devida vénia à Autora, a quem apresento os meus cumprimentos pela sua obra, começo por dizer que não gosto do título do livro, por tudo o que ele pode sugerir.
Não pretendo comentar a obra em si, tanto mais que ainda não a li - o que farei sem nenhum sacrifício -, mas tão-somente pegar-lhe no título, passando de soslaio pela sinopse e reflectir sobre o tema.
Talvez por não perceber bem o que é que significa ser bem ou mal amado – a ideia que tenho é que se pode ser muito amado ou pouco amado ou, simplesmente, ser ou não ser amado –, neste caso, eu preferia chamar-lhe "Assimetria de sentimentos"; e isto não é, apenas, uma questão semântica é, antes, uma questão de verdade interior.
Mas a Sinopse do livro reza assim:
"Este livro é dedicado a todas as mulheres que são mal-amadas. E quando falamos de mal-amadas, não nos referimos apenas a mulheres vítimas de violência doméstica. Falamos de mulheres que estão presas a relações impossíveis, furtivas, clandestinas ou proibidas. Relações que as consomem emocionalmente, que as vão destruindo psicologicamente aos poucos. Mulheres que choram por um amor sem futuro. Que são fiéis e submissas a um homem que não as quer bem. Mulheres extraordinárias, fortes em todos os campos da sua vida, menos no amor. Mulheres enganadas, assustadas, traídas, dispostas a anularem-se perante um homem que não as quer como elas merecem ser queridas.
- Anula-se na sua relação para não provocar conflitos com o seu marido?
- Acaba e recomeça constantemente a sua relação?
- Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?- É incapaz de falar com as suas amigas sobre os seus sentimentos?"
Esta notícia prendeu-me a atenção por ser um tema pelo qual me interesso muito, os sentimentos, mas também por não concordar com a ideia que o resumo que foi feito para a apresentação do livro transmite.
Permito-me discordar desta resenha porque não me parece que haja mulheres mal-amadas, aliás, nem mulheres nem homens mal-amados, o que há, isso sim, são sentimentos fora do lugar, amores trocados, ou o que lhes quisermos chamar, mais ou menos difíceis de morrer.
Se a expressão "mal-amada" corresponde a sentimentos desencontrados, isto não significa que, exactamente, por via disso, do outro lado da barreira que ela, inconscientemente, ergueu para se guardar só para esse amor, não haja um ou vários outros amores, que a podem amar muito, mas a quem, também ela, não pode corresponder. Neste caso o rótulo passaria a ser "Homens Mal-Amados"? E, em que é que ficamos, ela, ainda assim, é mal-amada?
Para além disto, da apresentação do livro – "Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?" –, fica-nos a ideia, a exemplo de muitos outros livros do género, que a obra pretende ser um kit, composto por uns quantos metros de felicidade, de tamanho maior ou menor consoante o número de pessoas a quem quisermos mostrar que somos felizes, um frasquinho de sorrisos, prontos a disparar sempre que se revelar oportuno, uma pomadinha para ajudar à serenidade e uma embalagem de comprimidos para a contenção e o auto-controlo.
Este meu acreditar é empírico, nada tem de científico, mas é a partir das experiências que se formam as teorias e são estas que nos conduzem à ciência. E é científico que as mulheres trazem consigo uma maior carga de emoção do que os homens, o que as faz, em regra, viver o amor com mais intensidade do que aqueles, sendo que isso as torna, também, mais vulneráveis, mas não, necessariamente, mal-amadas, seja o que for que isso signifique.
Com a devida vénia à Autora, a quem apresento os meus cumprimentos pela sua obra, começo por dizer que não gosto do título do livro, por tudo o que ele pode sugerir.
Não pretendo comentar a obra em si, tanto mais que ainda não a li - o que farei sem nenhum sacrifício -, mas tão-somente pegar-lhe no título, passando de soslaio pela sinopse e reflectir sobre o tema.
Talvez por não perceber bem o que é que significa ser bem ou mal amado – a ideia que tenho é que se pode ser muito amado ou pouco amado ou, simplesmente, ser ou não ser amado –, neste caso, eu preferia chamar-lhe "Assimetria de sentimentos"; e isto não é, apenas, uma questão semântica é, antes, uma questão de verdade interior.
Mas a Sinopse do livro reza assim:
"Este livro é dedicado a todas as mulheres que são mal-amadas. E quando falamos de mal-amadas, não nos referimos apenas a mulheres vítimas de violência doméstica. Falamos de mulheres que estão presas a relações impossíveis, furtivas, clandestinas ou proibidas. Relações que as consomem emocionalmente, que as vão destruindo psicologicamente aos poucos. Mulheres que choram por um amor sem futuro. Que são fiéis e submissas a um homem que não as quer bem. Mulheres extraordinárias, fortes em todos os campos da sua vida, menos no amor. Mulheres enganadas, assustadas, traídas, dispostas a anularem-se perante um homem que não as quer como elas merecem ser queridas.
- Anula-se na sua relação para não provocar conflitos com o seu marido?
- Acaba e recomeça constantemente a sua relação?
- Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?- É incapaz de falar com as suas amigas sobre os seus sentimentos?"
Esta notícia prendeu-me a atenção por ser um tema pelo qual me interesso muito, os sentimentos, mas também por não concordar com a ideia que o resumo que foi feito para a apresentação do livro transmite.
Permito-me discordar desta resenha porque não me parece que haja mulheres mal-amadas, aliás, nem mulheres nem homens mal-amados, o que há, isso sim, são sentimentos fora do lugar, amores trocados, ou o que lhes quisermos chamar, mais ou menos difíceis de morrer.
Se a expressão "mal-amada" corresponde a sentimentos desencontrados, isto não significa que, exactamente, por via disso, do outro lado da barreira que ela, inconscientemente, ergueu para se guardar só para esse amor, não haja um ou vários outros amores, que a podem amar muito, mas a quem, também ela, não pode corresponder. Neste caso o rótulo passaria a ser "Homens Mal-Amados"? E, em que é que ficamos, ela, ainda assim, é mal-amada?
Para além disto, da apresentação do livro – "Não consegue viver sem essa pessoa apesar de saber que ela não a merece?" –, fica-nos a ideia, a exemplo de muitos outros livros do género, que a obra pretende ser um kit, composto por uns quantos metros de felicidade, de tamanho maior ou menor consoante o número de pessoas a quem quisermos mostrar que somos felizes, um frasquinho de sorrisos, prontos a disparar sempre que se revelar oportuno, uma pomadinha para ajudar à serenidade e uma embalagem de comprimidos para a contenção e o auto-controlo.
Este meu acreditar é empírico, nada tem de científico, mas é a partir das experiências que se formam as teorias e são estas que nos conduzem à ciência. E é científico que as mulheres trazem consigo uma maior carga de emoção do que os homens, o que as faz, em regra, viver o amor com mais intensidade do que aqueles, sendo que isso as torna, também, mais vulneráveis, mas não, necessariamente, mal-amadas, seja o que for que isso signifique.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
A China dos Jogos Olímpicos
“O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto harmonioso as qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Aliando o desporto com a cultura e a educação, o Olimpismo propõe-se criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e respeito pelos princípios éticos fundamentais universais.”
Ponto 2. dos Princípios Fundamentais da Carta Olímpica
Nem toda a grandiosidade da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2008, completamente virada para o exterior, chega para obscurecer a terrível violação dos Direitos Humanos, imposta pelo regime, ao povo chinês.
Não tenho a pretensão de contar com a concordância de todos os que me lerem. Para além de respeitar a forma de pensar de todos e de cada um, está provado que num grupo, qualquer que seja, há sempre opiniões divergentes; mais ainda se estivermos a falar do quase ilimitado ciberespaço.
Sem querer entrar na questão ambiental - tanto quanto julgo saber, o Comité Olímpico Internacional, ao atribuir à China a organização dos Jogos Olímpicos de 2008, fê-la prometer que os problemas ambientais, que a tinham feito ser preterida em realizações anteriores, iriam ser ultrapassados, mais, que iria adoptar uma política ambiental que faria com que os Jogos Olímpicos de 2008, fossem baptizados de “Olinpíadas Verdes”, o que toda a gente, minimamente informada, sabe que não aconteceu -, nem querendo desprezar os esforços que a China fez para ir de encontro àquilo que se havia comprometido, no que respeita ao ambiente, a verdade é que as notícias que nos chegam dão conta de uma cidade, Pequim, absolutamente poluída, onde “passar um dia equivale a fumar cerca 70 cigarros” ou “Pequim esconde-se atrás de uma nuvem de poluição”, o que leva a que os especialistas acreditem que estas condições ambientais poderão afectar o desempenho dos Atletas.
Mas, de tudo o que tenho ouvido e lido, a minha atenção é mais atraída para os Direitos Humanos ou melhor, para a falta deles. Falar de Direitos Civis e Políticos, na China, é utópico, mas se formos mais precisos e nos referirmos a Direitos, Liberdades e Garantias, então, estaremos perante uma miragem.
Recuando um pouco no tempo, vem-me, inevitavelmente, à ideia aquele quadro de horror que foi mostrado ao mundo, a partir da Praça de Tiananmen, onde milhares de estudantes, que tiveram o atrevimento de sonhar com a democracia, foram calados sob os tanques do exército vermelho;
Do Tibete, embora filtradas pela censura, chegam-nos imagens e notícias da mais grosseira violação do direito à autodeterminação do povo Tibetano;
Na China condena-se à morte.
Voltando aos Jogos Olímpicos, a possibilidade do mundo boicotar as Olimpíadas foi muito discutida. Depressa se levantaram vozes para defender que os Atletas treinam há quatro anos, com vista a atingirem os mínimos para poderem participar nos Jogos Olímpicos, pelo que não seria justo que fossem impedidos, por questões políticas, de mostrar ao mundo o seu melhor, na mais elevada competição desportiva. Estou completamente de acordo, os Atletas não mereciam, mesmo, ver goradas as suas expectativas de poderem vir a ostentar uma medalha, quiçá de ouro, e subir ao mais alto degrau do desporto mundial.
Mas, e o povo chinês, que há mais ou menos cinquenta anos treina para se libertar do colete-de-forças que lhe foi colocado pelo regime comunista, não terá legitimidade para, também ele, desejar ver os seus direitos respeitados?
E os que se atrevem a discordar do regime ou a fazer-lhe oposição, não terão o direito a não ser perseguidos, presos e torturados?
E os presos políticos, quando são julgados, não terão direito à defesa?
E os que, em condições degradantes, enchem os campos de trabalho, não terão direito à dignidade humana?
E as crianças, cuja mão-de-obra ajuda a fazer crescer o BIP chinês, não merecem, no mínimo, que se lhes aplique a Convenção sobre os Direitos da Criança, adoptada pela Assembleia-geral das Nações Unidas?
É claro que têm! É claro que merecem!
Mas, para o mundo, quando se balanceiam os Direitos Humanos do povo chinês e os Jogos Olímpicos, aos olhos da diplomacia mundial, estes pesam muito mais do que aqueles, porque, afinal, o que é que são umas bastonadas que conseguiram escapar-se e penetrar na Internet, apesar de censurada, comparadas com os mui nobres interesses do regime chinês?!
Por tudo isto, assalta-me a terrível dúvida: Será que o Comité Olímpico Internacional, não se enganou ao atribuir à China a organização dos Jogos Olímpicos de 2008? Ou será que o ponto 2. dos Princípios Fundamentais da Carta Olímpica, foi alterado e já lá não consta: “… o Olimpismo propõe-se criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e respeito pelos princípios éticos fundamentais universais.”?
Ponto 2. dos Princípios Fundamentais da Carta Olímpica
Nem toda a grandiosidade da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2008, completamente virada para o exterior, chega para obscurecer a terrível violação dos Direitos Humanos, imposta pelo regime, ao povo chinês.
Não tenho a pretensão de contar com a concordância de todos os que me lerem. Para além de respeitar a forma de pensar de todos e de cada um, está provado que num grupo, qualquer que seja, há sempre opiniões divergentes; mais ainda se estivermos a falar do quase ilimitado ciberespaço.
Sem querer entrar na questão ambiental - tanto quanto julgo saber, o Comité Olímpico Internacional, ao atribuir à China a organização dos Jogos Olímpicos de 2008, fê-la prometer que os problemas ambientais, que a tinham feito ser preterida em realizações anteriores, iriam ser ultrapassados, mais, que iria adoptar uma política ambiental que faria com que os Jogos Olímpicos de 2008, fossem baptizados de “Olinpíadas Verdes”, o que toda a gente, minimamente informada, sabe que não aconteceu -, nem querendo desprezar os esforços que a China fez para ir de encontro àquilo que se havia comprometido, no que respeita ao ambiente, a verdade é que as notícias que nos chegam dão conta de uma cidade, Pequim, absolutamente poluída, onde “passar um dia equivale a fumar cerca 70 cigarros” ou “Pequim esconde-se atrás de uma nuvem de poluição”, o que leva a que os especialistas acreditem que estas condições ambientais poderão afectar o desempenho dos Atletas.
Mas, de tudo o que tenho ouvido e lido, a minha atenção é mais atraída para os Direitos Humanos ou melhor, para a falta deles. Falar de Direitos Civis e Políticos, na China, é utópico, mas se formos mais precisos e nos referirmos a Direitos, Liberdades e Garantias, então, estaremos perante uma miragem.
Recuando um pouco no tempo, vem-me, inevitavelmente, à ideia aquele quadro de horror que foi mostrado ao mundo, a partir da Praça de Tiananmen, onde milhares de estudantes, que tiveram o atrevimento de sonhar com a democracia, foram calados sob os tanques do exército vermelho;
Do Tibete, embora filtradas pela censura, chegam-nos imagens e notícias da mais grosseira violação do direito à autodeterminação do povo Tibetano;
Na China condena-se à morte.
Voltando aos Jogos Olímpicos, a possibilidade do mundo boicotar as Olimpíadas foi muito discutida. Depressa se levantaram vozes para defender que os Atletas treinam há quatro anos, com vista a atingirem os mínimos para poderem participar nos Jogos Olímpicos, pelo que não seria justo que fossem impedidos, por questões políticas, de mostrar ao mundo o seu melhor, na mais elevada competição desportiva. Estou completamente de acordo, os Atletas não mereciam, mesmo, ver goradas as suas expectativas de poderem vir a ostentar uma medalha, quiçá de ouro, e subir ao mais alto degrau do desporto mundial.
Mas, e o povo chinês, que há mais ou menos cinquenta anos treina para se libertar do colete-de-forças que lhe foi colocado pelo regime comunista, não terá legitimidade para, também ele, desejar ver os seus direitos respeitados?
E os que se atrevem a discordar do regime ou a fazer-lhe oposição, não terão o direito a não ser perseguidos, presos e torturados?
E os presos políticos, quando são julgados, não terão direito à defesa?
E os que, em condições degradantes, enchem os campos de trabalho, não terão direito à dignidade humana?
E as crianças, cuja mão-de-obra ajuda a fazer crescer o BIP chinês, não merecem, no mínimo, que se lhes aplique a Convenção sobre os Direitos da Criança, adoptada pela Assembleia-geral das Nações Unidas?
É claro que têm! É claro que merecem!
Mas, para o mundo, quando se balanceiam os Direitos Humanos do povo chinês e os Jogos Olímpicos, aos olhos da diplomacia mundial, estes pesam muito mais do que aqueles, porque, afinal, o que é que são umas bastonadas que conseguiram escapar-se e penetrar na Internet, apesar de censurada, comparadas com os mui nobres interesses do regime chinês?!
Por tudo isto, assalta-me a terrível dúvida: Será que o Comité Olímpico Internacional, não se enganou ao atribuir à China a organização dos Jogos Olímpicos de 2008? Ou será que o ponto 2. dos Princípios Fundamentais da Carta Olímpica, foi alterado e já lá não consta: “… o Olimpismo propõe-se criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e respeito pelos princípios éticos fundamentais universais.”?
quarta-feira, 30 de julho de 2008
" A Minha Oferta
Ofereço-te os sons da natureza
o todo magnífico
ofereço-te
a alma dos segredos soltos
em asas selvagens sem firmamento
repara
a harmonia das cores
o vasto mar
o sol a aquecer o sangue
até à tua inquietação
é tudo para ti
agarra
como se fosse a grande crença
e esconde no coração apenas aquela porção de céu
a bater no silêncio da maresia
não desisto enquanto não te oferecer a minha eternidade
a riqueza única
o húmus da minha paixão."
Rui Caetano, in Gestos do Silêncio
Fico só mais um bocadinho... Trago-te também uma flor, a tua flor! Em troca, acende o teu sorriso, ilumina o mundo, o meu mundo... sempre!
o todo magnífico
ofereço-te
a alma dos segredos soltos
em asas selvagens sem firmamento
repara

a harmonia das cores
o vasto mar
o sol a aquecer o sangue
até à tua inquietação
é tudo para ti
agarra
como se fosse a grande crença
e esconde no coração apenas aquela porção de céu
a bater no silêncio da maresia
não desisto enquanto não te oferecer a minha eternidade
a riqueza única
o húmus da minha paixão."
Rui Caetano, in Gestos do Silêncio
Fico só mais um bocadinho... Trago-te também uma flor, a tua flor! Em troca, acende o teu sorriso, ilumina o mundo, o meu mundo... sempre!
sábado, 14 de junho de 2008
Tenho medo...
Tenho medo do teu sorriso,
Tenho medo do teu olhar,
Tenho medo da tua paz,
Tenho medo da tua serenidade,
Tenho medo do teu saber,
Tenho medo de ti,
Tenho medo de mim,
Tenho medo...
E são todos estes medos que me povoam a alma, que dão equilíbrio aos meus dias!
Tenho medo do teu olhar,
Tenho medo da tua paz,
Tenho medo da tua serenidade,
Tenho medo do teu saber,
Tenho medo de ti,
Tenho medo de mim,
Tenho medo...
E são todos estes medos que me povoam a alma, que dão equilíbrio aos meus dias!
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Em defesa da língua portuguesa
Há poucos dias, juntei a minha assinatura a outras quinze mil, numa lista encabeçada pelo Vasco Graça Moura, num manifesto-petição contra o Acordo Ortográfico. Fi-lo por convicção.
Embora não seja uma fervorosa adepta das mudanças, sou, no entanto, receptiva a elas, sempre que o benefício esperado supere o respectivo custo. Mas, não me parece que seja o caso no que respeita ao Acordo Ortográfico. Digamos que as alterações acordadas, na prática, pouco mais servirão do que para os portugueses suprimirem uns quantos “p” e outros tantos “c”, para além de nos roubarem e ou trocarem alguns acentos.
Sim, porque nós vamos continuar a chamar “autocarro” ao “ônibus” dos brasileiros e continuaremos a ler “magnata” enquanto eles preferem acrescentar-lhe um “i” imaginário e chamar-lhe “maguinata”. Nós, seguramente, vamos continuar a impor ao pronome pessoal “me” que suceda aos verbos, sendo quase certo que os brasileiros, na hora de pedir, não hesitarão em continuar a dizer “me dá”.
E os PALOP, abandonarão os seus dialectos a partir do momento em que os respectivos países estiverem formalmente vinculados ao Acordo, através do depósito do respectivo documento de ratificação, e como que por magia todos os membros da CPLP afinarão pelo mesmo diapasão?
Será que esta mescla, feita do contributo de todos os países que falam português, com todas as suas especificidades, não ajuda a enriquecer a língua portuguesa?
Se tiver mesmo que haver mudanças, será que não deveriam ser os outros países da CPLP a ajustarem-se aos portugueses na hora de escrever?
Sem querer plagiar-me a mim própria, não resisto, ainda assim, a transcrever alguns excertos de um trabalho que fiz, há umas semanas atrás, exactamente, sobre as origens da língua portuguesa, e que deixo aqui, em jeito de reflexão.
Reflictamos:
“É suposto várias línguas derivarem de uma família comum; no caso do português, do romeno, do italiano, do francês e do espanhol, claramente, derivam do latim, mas, e as outras línguas quem lhes conhece o pai ou a mãe? Mau grado a falta de registos escritos, a exemplo do que aconteceu com o latim, deixa-nos esta pergunta sem resposta.
Poderão as línguas oriundas da família românica considerar-se a nata da sociedade linguística só porque é conhecida a sua estirpe? Se calhar, podem. É isso que se infere das palavras do Autor, mais concretamente quando questiona: “Que faríamos se o latim nunca se tivesse escrito?”
Orgulhosa da minha língua, do meu português que sempre admirei e respeitei, incomoda-me muito verificar - embora aceite as mudanças como um sinal de evolução da humanidade - que, de há uns anos a esta parte, sem escrúpulos e completamente à revelia de qualquer alteração oficial, resultante de acordo ou de convenção linguísticos, se têm adoptado e introduzido no dia-a-dia da língua portuguesa novas formas de falar e de escrever que em nada a enriquecem, antes, dão-lhe um toque de vulgaridade. Refiro-me à linguagem frequentemente usada pelos cibernautas e bem assim nas mensagens por telemóvel.
(...)
Consigo imaginar a língua portuguesa como uma árvore que, em vez de ter um tronco donde saem os ramos, tem muitos ramos que, imaginariamente, caminham na direcção do tronco tornando-o robusto e auto-suficiente. O tronco robusto e auto-suficiente é a língua portuguesa e os ramos são as diversas línguas que lhe deram origem.
(...)
À data da chegada dos romanos, a Península falava, entre outras línguas, a céltica e o basco. Porém, a hegemonia romana foi ditando o desaparecimento daquelas línguas à medida que foi impondo o latim; o latim na sua forma vulgar. A chegada de outros povos, Alanos, Suevos e Godos, foi trazendo novos vocábulos que se foram misturando com o latim que a Península falava.
Ainda assim, o latim não conseguiu resistir à penetração de diversos factores como, “os costumes, as raças, os climas e outros” que acabariam por fraccioná-lo em vários dialectos. Daí a afirmação de que o português provém do latim, embora enriquecido com vocábulos de várias outras origens.
(...)
Estarei correcta se disser que o latim é o substrato da língua portuguesa? Acredito que sim, pois que os fragmentos com que as outras línguas contribuíram para o que é hoje a língua portuguesa não me parece que reúnam as características necessárias para merecerem tal classificação.
(...)
De referir que o latim de que derivam as línguas românicas, é um latim vulgar, do qual não são conhecidos registos que nos permitam ter acesso às suas características e que provinha de várias regiões do império, normalmente trazido por soldados. O latim erudito, que era falado pelos patrícios – os nobres entre os romanos -, pelo clero e pelos Homens da cultura, não era usado entres os amigos em conversas informais nem no seio das famílias.
Sem pretender retirar mérito ao povo árabe, não deixo de ficar surpreendida, após a leitura atenta do texto que serviu de base a esta pequena reflexão, ao constatar que, apesar de tantos séculos de presença na Península Ibérica, o contributo dos árabes para a língua portuguesa é muito menos significativo do que o dos romanos.
O português transporta uma grande herança do latim, que, aliás, acaba por ser a sua matriz, embora muito enriquecido com vocábulos de várias outras línguas, o que reforça a ideia que eu já tinha de que a influência romana foi, em tudo, fundamental para que os portugueses sejam o povo que hoje são.”
Embora não seja uma fervorosa adepta das mudanças, sou, no entanto, receptiva a elas, sempre que o benefício esperado supere o respectivo custo. Mas, não me parece que seja o caso no que respeita ao Acordo Ortográfico. Digamos que as alterações acordadas, na prática, pouco mais servirão do que para os portugueses suprimirem uns quantos “p” e outros tantos “c”, para além de nos roubarem e ou trocarem alguns acentos.
Sim, porque nós vamos continuar a chamar “autocarro” ao “ônibus” dos brasileiros e continuaremos a ler “magnata” enquanto eles preferem acrescentar-lhe um “i” imaginário e chamar-lhe “maguinata”. Nós, seguramente, vamos continuar a impor ao pronome pessoal “me” que suceda aos verbos, sendo quase certo que os brasileiros, na hora de pedir, não hesitarão em continuar a dizer “me dá”.
E os PALOP, abandonarão os seus dialectos a partir do momento em que os respectivos países estiverem formalmente vinculados ao Acordo, através do depósito do respectivo documento de ratificação, e como que por magia todos os membros da CPLP afinarão pelo mesmo diapasão?
Será que esta mescla, feita do contributo de todos os países que falam português, com todas as suas especificidades, não ajuda a enriquecer a língua portuguesa?
Se tiver mesmo que haver mudanças, será que não deveriam ser os outros países da CPLP a ajustarem-se aos portugueses na hora de escrever?
Sem querer plagiar-me a mim própria, não resisto, ainda assim, a transcrever alguns excertos de um trabalho que fiz, há umas semanas atrás, exactamente, sobre as origens da língua portuguesa, e que deixo aqui, em jeito de reflexão.
Reflictamos:
“É suposto várias línguas derivarem de uma família comum; no caso do português, do romeno, do italiano, do francês e do espanhol, claramente, derivam do latim, mas, e as outras línguas quem lhes conhece o pai ou a mãe? Mau grado a falta de registos escritos, a exemplo do que aconteceu com o latim, deixa-nos esta pergunta sem resposta.
Poderão as línguas oriundas da família românica considerar-se a nata da sociedade linguística só porque é conhecida a sua estirpe? Se calhar, podem. É isso que se infere das palavras do Autor, mais concretamente quando questiona: “Que faríamos se o latim nunca se tivesse escrito?”
Orgulhosa da minha língua, do meu português que sempre admirei e respeitei, incomoda-me muito verificar - embora aceite as mudanças como um sinal de evolução da humanidade - que, de há uns anos a esta parte, sem escrúpulos e completamente à revelia de qualquer alteração oficial, resultante de acordo ou de convenção linguísticos, se têm adoptado e introduzido no dia-a-dia da língua portuguesa novas formas de falar e de escrever que em nada a enriquecem, antes, dão-lhe um toque de vulgaridade. Refiro-me à linguagem frequentemente usada pelos cibernautas e bem assim nas mensagens por telemóvel.
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Consigo imaginar a língua portuguesa como uma árvore que, em vez de ter um tronco donde saem os ramos, tem muitos ramos que, imaginariamente, caminham na direcção do tronco tornando-o robusto e auto-suficiente. O tronco robusto e auto-suficiente é a língua portuguesa e os ramos são as diversas línguas que lhe deram origem.
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À data da chegada dos romanos, a Península falava, entre outras línguas, a céltica e o basco. Porém, a hegemonia romana foi ditando o desaparecimento daquelas línguas à medida que foi impondo o latim; o latim na sua forma vulgar. A chegada de outros povos, Alanos, Suevos e Godos, foi trazendo novos vocábulos que se foram misturando com o latim que a Península falava.
Ainda assim, o latim não conseguiu resistir à penetração de diversos factores como, “os costumes, as raças, os climas e outros” que acabariam por fraccioná-lo em vários dialectos. Daí a afirmação de que o português provém do latim, embora enriquecido com vocábulos de várias outras origens.
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Estarei correcta se disser que o latim é o substrato da língua portuguesa? Acredito que sim, pois que os fragmentos com que as outras línguas contribuíram para o que é hoje a língua portuguesa não me parece que reúnam as características necessárias para merecerem tal classificação.
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De referir que o latim de que derivam as línguas românicas, é um latim vulgar, do qual não são conhecidos registos que nos permitam ter acesso às suas características e que provinha de várias regiões do império, normalmente trazido por soldados. O latim erudito, que era falado pelos patrícios – os nobres entre os romanos -, pelo clero e pelos Homens da cultura, não era usado entres os amigos em conversas informais nem no seio das famílias.
Sem pretender retirar mérito ao povo árabe, não deixo de ficar surpreendida, após a leitura atenta do texto que serviu de base a esta pequena reflexão, ao constatar que, apesar de tantos séculos de presença na Península Ibérica, o contributo dos árabes para a língua portuguesa é muito menos significativo do que o dos romanos.
O português transporta uma grande herança do latim, que, aliás, acaba por ser a sua matriz, embora muito enriquecido com vocábulos de várias outras línguas, o que reforça a ideia que eu já tinha de que a influência romana foi, em tudo, fundamental para que os portugueses sejam o povo que hoje são.”
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